A Crônica do Amor
Há dias em que olhamos para aquilo que amamos e não temos, e o desejo nos toca a pele como um arrepio — uma emoção misturada ao medo, uma doce impotência. O amor, esse mistério que nos percorre, surge entre a presença e a ausência, entre o real e a fantasia. Foi então que me veio à mente Freud, com suas palavras sobre a busca incessante por um objeto de amor. Ele dizia que a felicidade suprema acontece quando nos entregamos inteiramente ao domínio de um amor irresistível.
Naquele instante, Freud parecia ter atravessado o tempo para me encontrar. Eu estava ali, diante do amor irresistível, vendo cada traço, cada gesto, como se cada parte daquele ser fosse um reflexo do meu próprio desejo. E, mesmo na distância, eu o sentia perto, porque o amor também se faz de fantasias — e elas, por vezes, preenchem os espaços que a vida nos impõe.
Falar de amor sem sentir é impossível. Todos os poetas que o escreveram, de alguma forma, o sentiram — ainda que fosse apenas um eco do amor que desejavam ter. Mas me pergunto: existiria um poeta que nunca tenha, de fato, sentido o amor? E mais: será que existe alguém que nunca o tenha sentido? Ou será que ele se revela de tantas formas que, por vezes, nos escapa, escondido entre gestos mínimos, entre palavras não ditas, entre o simples desejo de ouvir uma voz, de saber do outro, de percebê-lo presente em alguma fresta do pensamento?
O amor não pode ser original porque é sempre antigo, sempre clichê. Mas eis o seu encanto: ele se renova a cada vez que acontece, como se fosse sempre o primeiro, sempre desconhecido. Melhor do que falar do amor é senti-lo. Melhor do que senti-lo é vê-lo refletido no outro — realizado, correspondido, puro em sua entrega.
Dias atrás, um amigo me disse que ouviu falar sobre uma régua para medir o amor. Achei curioso e perguntei como isso seria possível. O amor não é pessoal, único, inefável? Ele sorriu e respondeu que o amor mais puro se apresenta no amor de mãe, pois é desmedido, generoso, sem expectativa de troca ou gratidão — e que todos os outros amores poderiam ser medidos por essa régua. Fiquei me perguntando: qual seria a medida dos amores que sinto e já senti?
Não me alongo mais sobre o amor, porque todo o amor que sinto não caberia em palavras. O amor é tão meu, tão íntimo, que nele encontro tudo de melhor em mim. E se não for assim, então talvez não seja amor. Porque o amor, esse verdadeiro, nunca nos leva ao egoísmo, nunca fere, nunca se envenena de vaidade. Ele simplesmente é — inteiro, incondicional, luz sem sombras.
Que tal pararmos um pouco para pensar nos amores que sentimos? Talvez classificá-los, talvez entendê-los. Quem sabe, no fim, descobrir que já amamos muito mais do que imaginávamos? Amor com desejo, amor sem desejo, amor de cumplicidade, amor de poeta.
Que texto incrível
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