Passos Rápidos
Nos últimos dias, tenho caminhado pela cidade, observando as pessoas apressadas pelas ruas. Algo me chamou a atenção e despertou uma lembrança de outros tempos. Nem tão distantes assim — três anos apenas. Tempos em que eu também corria — e ainda corro —, mas de forma mais lenta. Sim, é possível correr devagar. Minha velocidade era outra porque carregava um peso maior. Muitos poderiam pensar que era o peso da culpa, da consciência, das pressões do mundo. Mas não. Nenhuma dessas coisas pesa tanto quanto o próprio corpo. Era ele que ditava o ritmo, dizendo à alma até onde ela poderia chegar.
Lembro-me de como cada passo exigia um esforço consciente, como se meu corpo precisasse negociar com o chão antes de seguir adiante. Não era apenas cansaço. Era uma espécie de freio invisível, um limite imposto pela matéria. O curioso é que, naquela época, eu não percebia essa barganha entre corpo e alma. Apenas aceitava o ritmo lento como um fato da vida, sem questionar se poderia ser diferente. Mas o momento do questionamento chegou.
Valia a pena continuar nessa velocidade e, junto com ela, enfrentar olhares de reprovação, rejeições amorosas, dificuldades para me adaptar a um mundo formatado para um único padrão? Não era apenas o corpo que sofria. A alma também, porque ser aceito sempre foi fundamental para seguir adiante.
Quando passamos a nos enxergar de outra forma, nossas conquistas começam a se alinhar ao novo corpo. E a alma, empolgada, responde com mais vontade de mudar. Foi assim que tudo começou a se transformar. Numa jornada difícil, cheia de adaptações, meu corpo se moldava, e, sem preguiça, foi conquistando espaços que antes lhe eram negados.
Hoje, diferente, estou me conhecendo e reconhecendo. Conhecendo um novo eu e reconhecendo que as dores do passado podem ser combustível para mudanças no presente — e para um novo sonho no futuro.
As mudanças sempre valem a pena. Elas nos empurram para um mundo novo, cheio de possibilidades que nos fazem refletir sobre a essência. Mas num corpo magro, o que restou? Quais foram as coisas que fiz questão de manter? E o que, sem perceber, deixei para trás? Como perguntaria Drummond: E agora, José?
Mais leve, mais cuidadoso, diferente e renovado, vou me refazendo. Me coloco no mundo de outra forma, e ele me responde de outro jeito. O mundo ainda pode ser cruel, mas agora as respostas batem e encontram alguém mais forte, pronto para o que vem pela frente.
Amei seu texto. Vivi 🙆🏽♀️👏🏽❤️
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