Tempos Imediatos
Uma pergunta intrigante para iniciar este texto. Nos últimos dias, tenho observado muitas pessoas tirando autorretratos — as famosas selfies — e algo me chamou a atenção: o que será que cada uma delas pensa ao se ver na tela do celular?
Quando nos fotografamos, estamos não apenas registrando um momento, mas também analisando nossa própria imagem. E, quase automaticamente, surge a dúvida: posto ou não posto? Esse questionamento, muitas vezes inconsciente, carrega um julgamento sobre nós mesmos, sobre como queremos ser vistos e, sobretudo, sobre como acreditamos que seremos avaliados pelos outros.
Para que uma foto vá parar nas redes sociais, ela precisa carregar significados. Não postamos apenas por registrar; postamos porque queremos comunicar algo. Mas o que exatamente estamos dizendo? Geralmente, buscamos transmitir felicidade, empoderamento, status, pertencimento. A partir desse momento, nos tornamos reféns da imagem que projetamos, sujeitos a julgamentos alheios que, em troca, nos oferecem a moeda da validação social: curtidas.
Cada curtida reforça a sensação de sucesso, ainda que passageiro, instantâneo, superficial. O prazer que ela proporciona é fugaz — tanto que, mal terminamos uma postagem, já estamos pensando na próxima: qual será o cenário? O que vou segurar? Em qual lugar da moda estarei? Tudo para garantir um novo instante de aprovação.
Essa necessidade compulsiva de postar e ser visto nos empurra para uma engrenagem invisível: somos coagidos a exibir cada ângulo, cada objeto desejável — e, se for um objeto de desejo coletivo, melhor ainda. A busca pela admiração alheia se torna tão intensa que nem percebemos quando esse ciclo se transforma em vício. A ansiedade se instala, e a vida parece girar em torno da próxima publicação.
Ansiedade é o mal do momento. Mas seria apenas um sintoma? Quantas vezes por dia nos sentimos ansiosos a ponto de dizer que temos ansiedade? E, quando a sentimos, como buscamos alívio? Será que uma postagem funciona como um pequeno comprimido que ameniza a inquietação?
Talvez estejamos viciados em admiração. Queremos, o tempo todo, ser vistos, aceitos, desejados. Mas até que ponto esse desejo é genuíno? Será que construímos um “eu paralelo” — um eu-irmão, moldado para sustentar essa necessidade de validação?
As timelines dos inúmeros aplicativos são espelhos desse fenômeno. Pequenos prazeres imediatos nos escravizam. Muitos diriam que somos prisioneiros de nossos próprios desejos, mas talvez sejamos prisioneiros daquilo que criamos para nos satisfazer: uma espécie de Frankenstein subjetivo que, ora nos preenche, ora nos aniquila. Construímos um eu para os outros e, no processo, nos distanciamos de nós mesmos.
O que há de autêntico em nossas postagens? Elas realmente dizem algo sobre nossa essência ou são apenas reflexos de um jogo de aparências?
A resposta pode nunca chegar. Mas, antes de mais um clique, talvez valha a pena se perguntar: quem estou tentando convencer?
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