A Casa dos Espelhos Invisíveis

 Era uma casa sem espelhos, onde ela passava os seus dias. Havia se visto em um espelho no passado — isso era um fato. Mas, em algum ponto da vida, o reflexo desapareceu, e com ele, a capacidade de se arrumar, de identificar detalhes ocultos nos cantos inatingíveis pelos olhos. Algo dentro dela simplesmente parou: uma pausa em perceber, tratar ou refletir sobre si.


O tempo passou. A ausência de espelhos tornou-se hábito. Ela não se interessava em saber como era vista, por si ou pelos outros. Quando lhe diziam algo sobre sua aparência ou personalidade, ouvia sem ouvir, como se falassem de outra pessoa — alguém distante, uma personagem fictícia que não lhe pertencia. E assim seguiu, imersa em uma rotina onde sua imagem, intocável e imutável, parecia cristalizada.


Espelhos eram, para ela, meros adornos decorativos. Não havia motivo para se olhar; mudar era desnecessário. Afinal, o que havia de novo? Suas convicções, sonhos e ideias permaneciam intactos, ou assim pensava. Mas o tempo, implacável, trouxe consigo um vazio. Algo começou a se rasgar dentro dela, uma desconexão entre o que era e o que vivia. Não era solidão — longe disso. Suas relações pareciam suficientes, até vibrantes. Via o mundo mudar, analisava, opinava... e, ainda assim, algo lhe faltava.


Sem espelhos para confrontá-la, começou a buscar seu reflexo nos outros. Observava gestos, reações, olhares. As pessoas tornaram-se espelhos imperfeitos, fragmentados, projetando pedaços dela mesma que não reconhecia. Mas, quanto mais buscava nesses reflexos, mais se afastava de si. Uma alienação silenciosa crescia, sufocando o que havia de mais íntimo.


Lacan diria que nossa identidade nasce no olhar do outro. Mas o outro, sozinho, nunca foi suficiente. A falta do reflexo direto — aquele confronto íntimo com seus próprios olhos — a deixava vazia. Quem era ela, além dos fragmentos que via nos outros? Onde estavam seus desejos esquecidos, seus prazeres negligenciados, suas dores reprimidas?


A ausência de espelhos, que antes parecia irrelevante, revelou-se o epicentro de um conflito. Ela percebeu que, ao apagar o reflexo de si mesma, havia perdido também o contato com seus sentimentos mais profundos, sua vitalidade, e sua capacidade de agir com autenticidade. Dependente das impressões dos outros, tornara-se uma sombra do que poderia ser.


E então, surgem as perguntas inevitáveis: precisamos de espelhos? Somos reflexos do mundo externo, do interno — ou ambos? Ou será que somos páginas em branco, escritas pelo contato incessante entre o que vivemos e o que carregamos dentro de nós?

Comentários

  1. Difícil resposta. Acho que somos um pouco de tudo. Como dizia Sartre "És livre, escolhe, ou seja: inventa"

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas