Por que nos aprisionamos?
"Stop! A vida parou, ou foi o automóvel?"
Oswald rasgou o tecido da realidade com esses versos. A vida nunca para por si só — somos nós que a estagnamos, algemamos nossos dias à previsibilidade, construímos celas invisíveis e chamamos isso de rotina. Nos acomodamos em contratos que apertam o corpo como correntes, amamos quem nos limita, trabalhamos fugindo de nós mesmos e, quando percebemos, o poema já virou epitáfio.
Há um conforto perverso nas prisões que escolhemos. Elas acalmam nossas inquietações, nos seduzem com a ilusão da estabilidade. A rotina se disfarça de segurança, o amor sem liberdade se fantasia de afeto, e o trabalho vira um refúgio do medo de encarar o vazio. Mas até que ponto estamos seguros e não apenas domesticados?
O trabalho se transforma em cárcere quando nos convencemos de que o desconforto é normal, que a falta de sentido é apenas um efeito colateral da necessidade. Aceitamos cada dia como ele vem, justificando que, no mercado implacável, não há espaço para a dúvida. Mas há algo mais cruel do que a certeza de que estamos sendo consumidos, lentamente, por uma sobrevivência que nos esgota?
Nos apaixonamos e logo nos aprisionamos. Construímos castelos de expectativas irreais, projetamos em alguém aquilo que queremos ser, e quando a realidade não corresponde à ficção, desmoronamos diante do abismo de um desejo unilateral. O amor, então, vira cárcere. Se o outro não nos deseja do mesmo modo, recusamos a verdade e continuamos insistindo, criando paredes onde deveria haver horizontes.
Aceitamos relações que sufocam, onde o afeto é apenas uma miragem e a reciprocidade nunca chega. Nos viciamos em confortos destrutivos, em ilusões que nos fazem sentir pertencentes, mesmo que este pertencimento nos devore. Nos acorrentamos a tudo que nos oferece um abrigo, mesmo que seja um abrigo irreal.
Precisamos nos perguntar: por que escolhemos essas prisões? O que ganhamos ao nos prender? Medos evitados, vazios preenchidos temporariamente, ilusões de felicidade? Nossos cárceres evoluem e mudam de nome, mas no fundo, continuam sendo os mesmos. A liberdade, se existe, se desenha na capacidade de perceber que muitas das grades foram colocadas por nós mesmos.
Então, quando a vida ameaça parar e o carro desacelera, devemos nos perguntar: estamos prontos para finalmente nos mover? Ou continuaremos aceitando a prisão disfarçada de vida?
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